Pesquisar este blog

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Viajando no Tempo, a bordo de um fusca 1970


De fusca, rumo ao Rio

Dez horas da manhã do sábado, 22 de setembro de 2007,  na rua Esteves da Silva, defronte ao bar do Ribeiro. Entro no fusca, ano 1970 e ligo o motor.
No momento em que a chave girou no contato foi como se eu mergulhasse no túnel do tempo (meu seriado favorito nos anos 60) e, após passar pelo caleidoscópio dos anos, voltasse a um passado medianamente distante, naquele mesmo local.

O carro avança por uma cidade que vive da pesca artesanal, que tem a segunda maior frota pesqueira do Estado de São Paulo..
Me preparo para viajar para o Rio de Janeiro, passando por uma Rio-Santos de reminiscências. Voltei ao ano de 1974 e estou passando por caminhos paradisíacos, rumo ao lado norte de Ubatuba. Não há invasões, periferias, violência. Tudo é verdade, mas parece um sonho...

Caiçaras andam a pé ou de bicicleta pelos acostamentos. São pescadores artesanais, que viviam dignamente. Muitos deles já trocaram suas valiosas terras por televisões, fogões ou refrigeradores.
Passo pelo Perequê-Açu deserto, vendo a Barra da Lagoa ao fundo, de longe vejo os barcos, as canoas...
A Vermelha do Norte selvagem, o mar batendo tão forte que os respingos do mar chegam a respingar nos vidros do carro.
Passo por uma Itamambuca dos primórdios, dos primeiros campeonatos de surf, das meninhas de tanga, deixando entrever os pêlos pubianos, uma ousadia da época.
Deixo-me envolver pelo estrondo da cachoeira do Promirim,  passo pelo Léo antes do desabamento, com os pesqueiros aguardando a maré...
Puruba, Ubatumirim dos pescadores, pela Fazenda dos sonhos, tendo ao fundo o caminho da vila da Picinguaba...
Na cachoeira da Escada, não há como não parar para observar a força daquelas águas. E perguntar: para onde vai tanta água? Durante todos estes milhares de anos, nunca se pensou em economizar ou aproveitar esta água... e se esta água faltar no futuro???
Cruzo a divisa, descendo em direção ao templo dos bichos grilos, Trindade. Flautas e violões, pedidos de carona, um clima de "primeira canção da estrada" (e não fazem mais de quatro semanas que eu estou na estrada...) até chegar em Parati.

Daí prá frente, um susto. Estamos na época da construção de Angra 1. Não é permitido filmar, nem fotografar.
- Mas como é mesmo o nome do lugar onde vão construir a usina?
- Itaorna
- Itaorna não quer dizer "pedra podre"?


Passei batido e cheguei ao Frade. Um frade sem marinas, nem condomínios. Caiçaras, meninas bonitas, sorrisos.
Próximo a Angra, paro para esticar as pernas. Olho a geografia acidentada e penso em como seria bonito ver ali, reproduzido, uma villa italiana ou aquelas construções típicas das ilhas gregas.
De volta à estrada, passo por Mangaratiba, procurando no horizonte a Ilha Grande, o maior presídio onde estão muitos presos políticos, "mas nem é bom pensar nisso, que pode acabar sobrando, vou deixar prá lá"*
* esclarecendo: na ditadura, a coragem era para bem poucos. Exatamente por este motivo, pela nossa índole conciliadora e "de deixar prá lá" que tenham sido 21 anos de regime militar.
Da estrada dá prá ver o "macaquinho", trem de passageiros que ligava Mangaratiba a Santa Cruz. De lá, até a Central do Brasil eram mais duas horas no "parador".
Santa Cruz, Campo Grande. Pela Avenida Brasil deserta, lá vai o fusca...
Bangu, Realengo, CEASA.... Passo pela entrada de Caxias, a então periferia  mais violenta do Rio...
Bem, agora é relaxar, Penha, Ilha, Bonsucesso e cheguei ao Centro, mas pelo bairro da Saúde.
Entro pela presidente Vargas e passo lentamente pela rua Pinto de Azevedo* (era a rua da luz vermelha), para ver o espetáculo das mulheres, de calcinha e sutiã, na calçada, a espera de fregueses).
imagem retirada do Blog "Largado em Guarapari"

Entro pela Lapa, no auge da decadência, com seus botecos sórdidos e malandros “agulha”, de lá é um pulo, passando defronte à Mesbla, até chegar ao Aterro do Flamengo.

Neste momento, como que acordando de um sonho, me dou conta que hoje é o Dia Mundial sem Carro. O trânsito é caótico. Começaram um movimento, mas esqueceram de avisar o pessoal para deixar os carros em casa. Conclusão: ruas fechadas e muitos congestionamentos.
Foram seis horas de viagem e trinta e um anos de lembranças.
"Em seis horas, tive todas as idades,
revi e revivi bons e maus momentos.
Tudo isto, dentro de um fusca
 (ou de uma máquina do tempo)